Por que algumas pessoas te percebem como um objeto útil em vez de um ser humano?

Descubra os traços psicológicos que predisponham certas pessoas a tratar os outros como meros instrumentos para o seu benefício pessoal.

Close-up of a chessboard with chess pieces in action, representing strategy and concentration.

Todos conhecemos alguém que só aparece quando precisa de um favor urgente ou de uma vantagem estratégica. Eles não se interessam genuinamente por como você está, mas sim pelo que você pode fazer por eles naquele momento exato. Essa dinâmica cotidiana, embora imensamente frustrante para quem a sofre, esconde um fenômeno psicológico muito mais profundo e complexo do que o simples egoísmo.

Em 2025, a pesquisadora Kinga Lachowicz-Tabaczek liderou um trabalho empírico revelador para entender exatamente que tipo de mentes operam dessa maneira desumanizante. Sua equipe fez uma pergunta direta e essencial para compreender nossas interações modernas: quais são os traços de personalidade específicos que predispõem alguém a reduzir um ser humano a um simples meio para alcançar um fim?

A anatomia mental da cosificação

Para entender essa pesquisa a fundo, primeiro devemos esclarecer o que significa exatamente o construto de “cosificação”. Tradicionalmente, solemos pensar neste conceito restrito a contextos de exploração sexual, relacionamentos românticos superficiais ou campanhas publicitárias, mas neste caso os autores falam de um fenômeno generalizado e transversal. Cosificar alguém é despojar ativamente de sua agência, autonomia e humanidade básica.

Imagine que você vai a um escritório e o líder da equipe não vê seus funcionários como pessoas com metas, famílias e esgotamento, mas literalmente como engrenagens fungíveis e intercambiáveis em uma máquina de produção comercial.

Essa é a visão puramente instrumental. Implica perceber os outros como entes inertes, carentes de sentimentos subjetivos profundos, e tratá-los como meros recursos que podem ser possuídos, usados para atingir um objetivo e posteriormente descartados.

Os pesquisadores postularam a hipótese de que esta terrível tendência não surge unicamente de pressões do ambiente de trabalho ou fatores situacionais temporais, mas que está profundamente ancorada em certos traços pessoais antagônicos e malévolos. Por um lado, analisaram a infame “Tríade Oscura” da personalidade.

Essa categorização psiquiátrica agrupa o narcisismo (a necessidade imperiosa de admiração acompanhada de um sentimento de superioridade ou grandiosidade), a psicopatia (a frieza emocional extrema, a impulsividade e a falta de remorso pelo dano causado) e o maquiavelismo (a tendência fria, cínica e calculadora a manipular os outros ignorando completamente a moralidade convencional).

Por outro lado, avaliaram dimensões muito mais pró-sociais e cotidianas, como as normas de reciprocidade — a crença social fundamental de que os favores recebidos devem ser devolvidos — e a “amabilidade” (agreeableness) geral, um traço clássico do modelo dos Cinco Grandes que reflete compaixão, calor e confiança pelos outros. Ao medir e contrastar todas estas variáveis complexas juntas, a equipe buscava desmascarar o verdadeiro motor psicológico por trás do trato interpessoal desumanizante.

Os verdadeiros impulsores do utilitarismo humano

Os dados resultantes ofereceram uma radiografia estatística fascinante e inquietante sobre como funciona verdadeiramente a mente utilitarista. Em primeiro lugar, os pesquisadores descobriram que o antídoto natural mais forte contra a cosificação é a combinação de alta amabilidade com o suporte à norma de reciprocidade positiva.

As pessoas que genuinamente acreditam na importância moral de devolver um bom gesto com outro gesto recíproco demonstraram ser significativamente menos propensas a ver os outros como objetos úteis.

Isso significa que a empatia ativa atua como um escudo protetor indispensável; se sua mente valoriza o tecido da cooperação mútua, é quase impossível que ela anule mentalmente a humanidade do outro.

De igual forma, os indivíduos com maior nível de “intelecto” (curiosidade intelectual ou abertura à experiência) mostraram uma menor inclinação a cosificar, sugerindo de forma otimista que as mentes predispostas ao aprendizado tendem a apreciar a rica e variada complexidade humana em vez de simplificar preguiçosamente em categorias utilitárias.

Mas a verdadeira revelação científica surgiu ao observar o lado sombrio do espectro da amostra estudada. Inicialmente, e como era de esperar, as pessoas que apresentavam altos níveis dos traços da Tríade Oscura mostraram uma forte e previsível inclinação a usar os outros.

No entanto, o matiz mais importante emergiu graças ao rigor analítico. Como aponta a equipe de Lachowicz-Tabaczek (2025), ao ajustarem minuciosamente seus modelos estatísticos para determinar qual traço específico tinha o peso preditivo real de forma independente, aspectos intimidantes como a psicopatia pura e o maquiavelismo passaram surpreendentemente para segundo plano.

Os verdadeiros impulsores independentes do comportamento desumanizante resultaram ser dois fatores muito específicos e cotidianos:

    1. A Explotabilidade Interpessoal

    A tendência constante e deliberada de tirar proveito dos recursos ou habilidades dos outros para benefício próprio, sem sentir a mínima obrigação ética de retribuir.

    2. O Sentimento de Direito (Entitlement)

    A convicção mental firme e distorcida de que se merece privilégios incondicionais, recompensas ou um tratamento especial acima do resto, independentemente de seu esforço real ou mérito demonstrado.

    Em essência, este revelador achado indica que o que te transforma em uma simples ferramenta aos olhos de outro não é necessariamente que você enfrente uma personalidade psicopática clínica. É a combinação tóxica e mundana de interagir com alguém que acredita arrogantemente que o mundo lhe deve reverência, somado à sua total disposição a extrair valor social de sua vida sem jamais oferecer nada em troca.

    Para chegar a estas sólidas conclusões, a equipe de pesquisa desenhou um estudo em que participaram 372 adultos (222 delas mulheres, com uma idade média representativa de 34 anos) recrutados através da plataforma online Ariadna Research Panel em Polônia.

    Os participantes completaram uma robusta bateria de questionários padronizados que mediram com precisão desde suas dimensões dos Cinco Grandes até seus níveis de narcisismo vulnerável (hipersensibilidade à crítica) e sua adesão a normas de reciprocidade tanto positivas quanto negativas (vingança diante de um tratamento injusto).

    Não obstante, como exige toda ciência rigorosa, este fascinante estudo tem fronteiras metodológicas claras que devemos reconhecer abertamente. Como o estudo mediu todas estas complexas variáveis em um único momento no tempo mediante um desenho transversal ou correlacional, não podemos decretar com absoluta certeza temporal que o senso de direito cause unilateralmente que alguém comece a cosificar os outros.

    É completamente plausível que a dinâmica opere em ambas as direções alimentando-se mutuamente, ou que variáveis ambientais não medidas, como a exposição prolongada a ambientes corporativos hipercompetitivos, cultivem paralelamente ambas as atitudes prejudiciais.

    O Custo Oculto do Utilitarismo

    Como este novo conhecimento altera a forma como avaliamos nossas relações sociais e estruturas organizacionais? Historicamente, desde a sociologia e a psicologia do trabalho, temos tido a tendência de culpar principalmente as frias pressões externas — o capitalismo baseado no desempenho, a tecnologia despersonalizante, a carga burocrática — pela alarmante frequência com que nos desumanizamos mutuamente.

    Este trabalho traz uma peça essencial ao quebra-cabeça da convivência contemporânea ao nos lembrar que também existe um “hardware” psicológico latente, uma forte predisposição pessoal e interna que facilita o atalho mental de ver o próximo como uma mera ferramenta.

    Se futuros estudos conseguirem validar solidamente a direcionalidade dessa relação causal, podemos estar diante da necessidade de uma profunda mudança de paradigma em relação a como avaliamos o talento humano e promovemos líderes na sociedade. Empresas e organizações poderão ser obrigadas a deixar de se focar unicamente no carisma superficial ou na assertividade durante os filtros de contratação, para começar a avaliar seriamente os níveis de empatia recíproca e descartar ativamente a tendência ao “sentimento de direito”.

    Em última análise, a compaixão genuína e o respeito intrínseco pela autonomia dos outros não são apenas nobres ideais morais, mas são os únicos mecanismos psicológicos que impedem que nossas comunidades se desintegrem em frias e exaustivas redes de exploração mútua.

    Fonte

    Lachowicz-Tabaczek, K., Andrzejewska, B., Juszkiewicz, A., & Babiak, J. (2025). Who tends to perceive other people as useful objects? The relationship between the general tendency to objectify other people and basic and dark personality traits. Current Issues in Personality Psychology. DOI: 10.5114/cipp/195599

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