Pense na sua última discussão com seu parceiro ou naquela decisão conjunta com seu melhor amigo. Já sentiu que suas opiniões caíram em saco-roto e que não tem voz nem voto? Essa sensação de impotência é comum, mas a ciência sugere que você está errado.
Em um trabalho revelador, o psicólogo Robert Körner (2026) e sua equipe descobriram uma paradoxal fascinante: os seres humanos tendemos a subestimar de forma sistemática o poder e a influência que exercemos sobre as pessoas mais próximas da nossa vida.
Por que o cérebro nos engana?
Para compreender essa distorção, primeiro devemos esclarecer o que significa realmente “poder” na psicologia moderna. Não estamos falando de tirania doméstica nem de manipular o outro. No âmbito dos vínculos próximos, o poder é a capacidade percebida de guiar decisões mútuas e conseguir que nossas necessidades e metas sejam atendidas.
Por que nosso cérebro preferiria nos fazer sentir menos influentes do que somos? A resposta está na Teoria da Gestão de Erro. Pense nisso através da analogia de um detector de fumaça doméstico: é muito mais seguro que o aparelho se active falsamente com o vapor da ducha (um erro falso positivo de baixo custo) do que permaneça silencioso durante um incêndio real (um erro falso negativo catastrófico).
Evolutivamente, nosso cérebro aplica a mesma lógica de “segurança acima de tudo” em nossas relações sociais:
- O erro caro: Se você sobreestimar seu poder, pode agir de forma egoísta, exigir mais e provocar conflitos que destroem o vínculo.
- O erro seguro: Se você subestimar seu poder, tenderá a usar estratégias mais cooperativas, será mais empático e se esforçará por manter a harmonia.
Portanto, a mente prefere nos fazer sentir sutilmente desarmados antes de arriscar-nos ao rejeição social. No entanto, esse mecanismo de defesa não opera igual em todos nós. Os pesquisadores descobriram que nossas dinâmicas de personalidade e medos internos alteram drasticamente a intensidade desse viés.
Os três motores que distorcem sua percepção
A equipe de pesquisa descobriu que a forma como avaliamos nossa influência está fortemente ligada a três grandes categorias de motivações psicológicas.
1. O escudo da autoproteção
As pessoas que vivem com medo crônico de rejeição ou perda — aquelas com alta ansiedade de apego, baixa autoestima ou propensão a ciúmes — experimentam uma subestimação de poder muito mais profunda. Quando o medo de ser ferido toma o controle, a mente assume uma postura de absoluta vulnerabilidade. Consequentemente, essas pessoas interpretam a realidade a partir da indefesa, convencendo-se de que não têm influência alguma, mesmo quando seus parceiros relatam o contrário.
2. A paradoquia dos obsessivos com o controle
Poderia parecer que alguém com forte desejo de liderança ou traços de apego evitativo se sentiria extremamente poderoso. Surpreendentemente, ocorre o oposto: Körner (2026) descobriu que quem prioriza autonomia e poder pessoal subestima severamente sua influência real em casa. Isso acontece porque perfis evitativos ou hipervigilantes veem a necessidade mútua de ceder e negociar como uma limitação intolerável, o que os faz perceber que estão perdendo o controle quando apenas estão experimentando uma relação normal.
3. O caso especial da masculinidade em relações heterossexuais
Os dados revelaram um matiz social notável: homens em relacionamentos heterossexuais subestimam seu poder de maneira significativamente mais pronunciada do que as mulheres. Curiosamente, essa diferença de gênero não se manifestou com a mesma intensidade nas amizades platônicas desses mesmos homens. Esse fenômeno sugere que expectativas socioculturais tradicionais pressionam os homens a demonstrar autoridade constante, tornando-os hipervigilantes (e pessimistas) diante de qualquer cenário de interdependência afetiva com uma mulher.
Medir o viés exige uma estratégia científica astuta, já que apenas seu parceiro sabe realmente quão influente você é. Os pesquisadores analisaram uma amostra massiva de 1304 díadas (casais de indivíduos) distribuídas em quatro amostras internacionais independentes:
- 305 pares de amigos na Alemanha.
- 87 casais românticos do mesmo gênero na Alemanha.
- 481 casais heterossexuais na Alemanha.
- 431 casais heterossexuais na Nova Zelândia.
Cada participante completou extensivos questionários de forma estritamente confidencial e separado do seu companheiro. Utilizando o Modelo de Verdade e Viés (Truth and Bias Model), os cientistas cruzaram a percepção de poder do “Ator” com o relato real de influência do seu “Companheiro”.
Do ponto de vista estatístico, os resultados mostraram uma consistência abrangente (com níveis de significância de p < 0.001 na maioria dos testes de viés). O estudo também validou a existência da precisão de rastreamento: embora quase todos os participantes se sentissem com menos poder do que o real, ainda eram capazes de identificar corretamente se tinham mais ou menos influência relativa em comparação com outras duplas no estudo.
Uma limitação importante a considerar: Como as variáveis foram medidas num único bloco temporal, não é possível estabelecer uma causalidade linear perfeita. É possível que baixa autoestima cause subestimação de poder, mas também é viável que sentir-se cronicamente impotente erosione a autoestima ao longo do tempo. Além disso, o estudo analisou o poder geral; são necessários futuros trabalhos para verificar se esse viés permanece idêntico em áreas hiperespecíficas como finanças domésticas ou intimidade sexual.
Conclusões
Esse descobrimento nos obriga a repensar completamente as raízes de muitos comportamentos prejudiciais na convivência. Tradicionalmente, quando alguém recorre à manipulação sutil, ao isolamento emocional ou até aos arrebatos de agressão verbal, tendemos a pensar que o faz desde uma posição de “excesso de poder” ou dominação.
Esse estudo nos convida a mudar o diagnóstico: em grande parte dos casos, essas condutas destrutivas são o soco do afogado de alguém que se sente erroneamente indefeso. Ao não ser consciente do impacto real das suas palavras, essa pessoa eleva o tom ou recorre ao drama psicológico para “fazer-se ouvir”, sem perceber que já tinha toda a atenção e vulnerabilidade do seu companheiro.
Se conseguirmos treinar-nos para reconhecer nossa influência verdadeira, poderemos substituir dinâmicas defensivas por uma comunicação muito mais transparente e responsável. Saber que importa e que suas ações pesam no bem-estar do outro não é um luxo para o ego; é o pilar fundamental da responsabilidade afetiva.
Fonte
Körner, R. & Overall, N. (2026). Bias in Perceptions of Power in Close Relationships: The Role of Self-Protection, Pro-Relationship, and Power Motives. Personality and Social Psychology Bulletin. DOI: 10.1177/01461672251409849