Adultos sem filhos enfrentam estigma por serem percebidos como menos empáticos

É importante desmentir mitos sobre as pessoas que optam por não ter filhos, a decisão é íntima e pessoal, e não deve ser malinterpretada.

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A pesar da crescente visibilidade dos novos modelos de família, a decisão voluntária de não ter filhos continua sendo um terreno fértil para o preconceito implícito e explícito. A psicologia social tem estudado há muito tempo a pressão das normas pronatalistas, mas ainda carecia de evidências quantitativas sólidas sobre como se estrutura o estereótipo em relação aos que desafiam este mandato.

Para preencher este vazio, uma pesquisa recente publicada no The Journal of Social Psychology por Nida Denson, Diana Ferreira e Thomas F. Denson (2025) oferece validação empírica sobre a percepção deste grupo. O estudo desmembra a natureza do estigma através do Modelo de Conteúdo de Estereotipos (SCM), revelando uma dicotomia chave: as pessoas childfree são vistas como competentes, mas deficientes em calor humano.

O significado da escolha childfree

É fundamental, desde uma perspectiva clínica e sociológica, distinguir entre os termos childfree (livres de filhos por escolha) e childless (sem filhos por circunstâncias). De acordo com Denson e sua equipe, o termo childfree refere-se a adultos que escolhem conscientemente e voluntariamente não ter descendência, visualizando esta decisão como uma postura de vida de longo prazo ou permanente, e não como uma etapa transitória.

As motivações por trás desta escolha são multifacetadas e desafiam a narrativa simplista do egoísmo. Os pesquisadores destacam:

  • Motivos pessoais e de estilo de vida: Valorização da autonomia, mobilidade e flexibilidade profissional.
  • Fatores econômicos: Insegurança financeira ou custos habitacionais.
  • Motivos éticos e ambientais: Preocupação com a mudança climática e superpopulação.
  • Considerações de saúde: Riscos físicos ou de saúde mental associados à paternidade.

Um fenômeno demográfico em ascensão

A relevância deste estudo reside na força demográfica do grupo avaliado. Não estamos diante de uma “anomalia” estatística, mas frente a uma tendência consolidada nos países de altos rendimentos. Denson et al. (2025) apontam que a proporção de pessoas childfree aumentou graças ao acesso à anticoncepção, oportunidades educativas e mudança nas normas de gênero.

Os dados contextuais do estudo indicam que:

  • No mundo ocidental, aproximadamente entre o 10% e 20% da população adulta se identifica como childfree.
  • Este grupo representa até o 30% do total de pessoas sem filhos.
  • Dados recentes sugerem que quase metade (47%) dos adultos com entre 18 e 49 anos, sem filhos, declaram que é pouco provável que tenham filhos no futuro por falta de desejo.

A percepção do calor e o gênero

O time de Denson realizou três estudos consecutivos que lançam luz sobre a dinâmica psicosocial do preconceito. Os resultados mais relevantes para a prática psicológica incluem:

  • Déficit de Calor: Ao longo das três amostras, as pessoas childfree foram consistentemente avaliadas com menor “calor” (amabilidade, empatia) em comparação com pais biológicos, pais adotivos e até mesmo pessoas childless.
  • Competência Intacta: Ao contrário de outros grupos estigmatizados, os sujeitos childfree não foram percebidos como incompetentes. Na verdade, no terceiro estudo, foram classificados com uma competência ligeiramente superior aos pais.
  • A Brecha de Gênero: Identificou-se um sesgo interseccional. Mulheres childfree foram avaliadas como menos calidas que homens childfree. Curiosamente, participantes femininas tendiam a avaliar a competência dos homens childfree mais alto do que as mulheres em situações semelhantes.
  • Indicadores de Discriminação: O estudo revelou que o apoio à discriminação contra este grupo (ex.: negar prioridades em viagens de trabalho) correlaciona-se fortemente com a desumanização, a percepção de narcisismo e a adesão rígida às normas pronatalistas.

A pesquisa foi estruturada em três fases metodológicas, envolvendo um total aproximado de 1.218 participantes, proporcionando uma potência estatística considerável:

  1. Estudo 1 (n=475, EUA): Amostra mista utilizando “termômetros de atitude”.
  2. Estudo 2 (n=450, EUA): Amostra composta exclusivamente por pais, projetada para exacerbar o conflito com as normas pronatalistas.
  3. Estudo 3 (n=293, Reino Unido): Foram adicionadas medidas de desumanização, ameaça simbólica/real e inveja.

O time de investigação destaca que, ao utilizar plataformas de crowdsourcing (MTurk e Prolific), existe risco de viés na amostra. Além disso, o projeto transversal impede estabelecer causalidade. Uma importante limitação teórica é a permeabilidade dos grupos: a categorização de “sem pais” às vezes combina desejo e expectativa, o que pode confundir nuances clínicas.

Conclusão

O trabalho de Denson, Ferreira e Denson traz uma distinção crucial: o estigma em relação aos indivíduos que decidem não procriar não se baseia em uma percepção de incapacidade, mas sim em uma atribuição de caráter moral negativo. Eles são vistos como competentes, porém “frios” e narcissistas.

Isso sugere que as intervenções para reduzir este preconceito não devem focar em demonstrar a capacidade ou sucesso das pessoas childfree, mas sim em humanizar suas motivações. É preciso desafiar a narrativa cultural que iguala parentalidade como o único caminho válido para a empatia e calor emocional adulto.

Fonte

Denson, N., Ferreira, D., & Denson, T. (2025). Evidence of a negative bias toward people who are childfree by choice. The Journal of Social Psychology, 1-21. DOI: 10.1080/00224545.2025.2573719

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