Por que acreditar que as primeiras impressões são imutáveis reduz a ansiedade social?

Adotar uma mentalidade fixa sobre as primeiras impressões poderia reduzir a ansiedade social ao tornar o ambiente mais previsível.

Man showing stress and frustration while working remotely on a laptop indoors.

Viver com ansiedade social costuma ser como fazer uma prova oral que nunca termina. Quem a experimenta sente que cada gesto, palavra ou silêncio está sendo avaliado (e provavelmente, julgado negativamente) em tempo real por seu interlocutor. Sabemos que a terapia costuma se concentrar em mudar essas distorções internas, mas e se o alívio viesse de simplesmente mudar nossas suposições sobre como funciona a mente dos outros?

Em um estudo publicado em 2025, o pesquisador Liad Uziel apresenta uma paradoxa fascinante: enquanto a psicologia moderna idolatra a “mentalidade de crescimento” (a crença de que tudo pode mudar e melhorar), para pessoas com ansiedade social, acreditar que as primeiras impressões são estáticas e imutáveis poderia ser o verdadeiro salvavidas.

A armadilha da melhoria contínua

Para entender por que este estudo põe em xeque alguns dogmas do desenvolvimento pessoal, primeiro devemos dissecar como opera a mente ansiosa em público. A ansiedade social não é mera timidez; é um ciclo exaustivo de auto-monitoramento. A pessoa divide sua atenção entre a conversa e um crítico interno implacável.

É aqui que entra a teoria das mentalidades aplicada à formação de impressões.

  • Mentalidade de Crescimento (Growth Mindset): Acreditar que a opinião que alguém tem de você está em constante evolução. Se você faz algo bem, sobe pontos; se você erra, desce.
  • Mentalidade Fixa (Fixed Mindset): Acreditar que, uma vez que alguém forma uma impressão de você, a sorte está lançada e raramente mudarão de opinião.

O raciocínio de Uziel era o seguinte: para uma pessoa ansiosa, acreditar que a impressão do outro é maleável significa que sempre há trabalho a ser feito. É como jogar um videojogo onde as regras mudam a cada cinco segundos; esgota seus recursos cognitivos. Mas, e se você induz essa pessoa a acreditar que a impressão é fixa?

Se o jogo já terminou e você não pode fazer nada para mudar a opinião do outro, a incerteza desaparece. Você relaxa, direciona sua atenção para fora e, paradoxalmente, age de maneira mais natural.

Em vez de simplesmente perguntar aos participantes o que eles preferiam, a equipe projetou experimentos para manipular temporariamente essas mentalidades e ver como influenciavam tanto o desempenho objetivo quanto a experiência subjetiva diária.

Quando desistir é ganhar

O pesquisador estruturou uma série de testes para submeter esta hipótese a diferentes níveis de pressão social. Os resultados revelaram um padrão surpreendentemente consistente.

1. O escudo contra o estresse leve (O perfil escrito)

No primeiro experimento, os estudantes deviam escrever uma apresentação sobre si mesmos sabendo que um estranho a leria. Aqueles com alta ansiedade social a quem se induziu uma mentalidade de crescimento escreveram perfis que juízes independentes classificaram como menos desejáveis e mais tensos. No entanto, quando se lhes induziu a mentalidade fixa, a penalização da ansiedade desapareceu: escreveram perfis tão atraentes quanto os de seus pares sem ansiedade.

  • Tirar o peso de “ter que impressionar continuamente” liberou a largura de banda mental necessária para simplesmente comunicar quem eram de forma assertiva.

2. Sobrevivendo à câmera (O teste de alto estresse)

Escrever é uma coisa, mas falar frente a uma lente é o terror clássico da ansiedade social. No segundo experimento, os participantes tiveram que se gravar em vídeo durante dois minutos seguidos.

Novamente, a mentalidade de crescimento prejudicou o desempenho dos participantes ansiosos (menos contato visual, pior fluidez). Mas sob a influência da mentalidade fixa, conseguiram projetar uma imagem positiva e fluida.

  • Isso nos demonstra que o efeito pacificador de um mundo previsível não só funciona em papel, mas neutraliza as respostas motoras e verbais do estresse agudo em tempo real.

3. O impacto no mundo real (Os três dias de teste)

Sair do laboratório era o passo lógico. Uziel pediu aos participantes que adotassem uma das duas mentalidades e então saíssem para viver suas vidas. Três dias depois, relataram a qualidade de suas interações. Quem tinha ansiedade social e operou sob a premissa de que “as impressões não mudam” relataram interações significativamente mais satisfatórias e menos estressantes do que seus contrapartes.

  • O benefício não é apenas uma ilusão óptica para os juízes externos; o portador da ansiedade sente um alívio genuíno em sua cotidianidade.

Metodologia

O estudo (Uziel, 2025) utilizou amostras de estudantes universitários israelenses (e adultos britânicos em uma fase preliminar) medindo a ansiedade social com a reconhecida escala LSAS-SR.

Para modificar as mentalidades, o pesquisador usou uma técnica padrão: fazer com que os participantes lessem e concordassem com afirmações fortemente tendenciosas para um modelo ou outro (por exemplo, “As pessoas tendem a formar impressões sólidas e duradouras”). Em termos estatísticos, os efeitos encontrados variaram entre pequenos e moderados (com tamanhos de efeito como d = 0.525 nas manipulações), o que é o esperado para intervenções cognitivas breves, mas absolutamente relevante para melhorar a qualidade de vida.

Uma limitação importante que o próprio autor reconhece é que o estudo analisou a variabilidade normal da ansiedade na população geral, não em pacientes com um diagnóstico clínico severo de Transtorno de Ansiedade Social. Além disso, ao medir o efeito aos três dias, ainda não sabemos se adotar conscientemente esta mentalidade fixa pode reescrever as vias neurais a longo prazo ou se é apenas um “parche” temporal útil antes de um evento estressante.

O fim da tirania do “crescimento”?

O que significa isso para a psicologia moderna? Basicamente, nos adverte sobre os perigos das “tamanhos únicos”. A mentalidade de crescimento é fantástica se você está aprendendo a tocar piano ou estudando matemática; fomenta a resiliência. Mas quando se aplica a como nos avaliam os outros, pode se tornar um motor de ruminação para as mentes ansiosas.

Esses achados sugerem que, às vezes, a previsibilidade é mais terapêutica do que a possibilidade. Aceitar que não temos o controle total sobre a opinião dos outros (e que esta é obstinadamente estática) não é uma derrota; é uma rendição estratégica.

Se futuros ensaios clínicos confirmarem que este alívio se mantém no tempo, poderíamos estar diante de uma ferramenta de baixo custo e alta eficácia para terapeutas. Talvez o segredo para interagir melhor não seja tentar ser perfeitos, mas assumir que os outros, no fundo, já não se importam tanto em nos mudar.

Fonte

Uziel, L. (2025). The Soothing Effect of a Stable World: Social Behavior of Individuals Varying on Social Anxiety Under Fixed and Growth Mindsets About Impression Formation. Personality and Social Psychology Bulletin. DOI: 10.1177/01461672251378537

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