Todos nós ouvimos o famoso mantra da psicologia pop e das revistas de autoajuda: “Você não pode amar ninguém mais até que não se ame a si mesmo” . Soa lógico e quase poético. Mas se pensarmos com detenimento, surge uma pergunta incômoda: é isto cientificamente certo ou é apenas um clichê cultural que pressiona as pessoas a alcançar uma perfeição emocional antes de buscar companhia?
Um recente estudo liderado pela investigadora Petra Jansen (2026) junto com sua equipe da Universidade de Ratisbona se propôs a testar esta crença popular. O que encontraram matiza profundamente a forma como entendemos o romance: o amor próprio e o amor de casal sim estão conectados, mas não da forma absoluta que costumamos crer. Você não precisa de uma iluminação emocional total, mas certos hábitos específicos de trato para com si mesmo são o verdadeiro motor da intimidade.
O que significa realmente “amar-se”?
Para investigar isto, a equipe de Jansen primeiro teve que limpar o conceito de “amor próprio” de suas confusões habituais. Na cultura geral, frequentemente se confunde com o narcisismo —essa necessidade desproporcional de atenção e grandeza—. No entanto, o amor próprio genuíno é um amortecedor psicológico saudável que previne problemas de saúde mental.
A psicologia moderna divide o amor próprio em três componentes fundamentais:
- Autoconexão (Self-contact): É a capacidade de perceber-se com clareza. É como olhar o painel de instrumentos de um carro: saber o que sente, conhecer seus limites e fortalezas, sem julgá-los.
- Autoaceitação: É abraçar o que vê nesse painel. Implica dar as boas-vindas a todas as suas emoções, mesmo as negativas, e perdoar-se por seus defeitos.
- Autocuidado: É a ação externa. Consiste em tratar-se bem, buscar ativamente o que lhe dá alegria e encontrar formas de curar quando sofre.
Além disso, os investigadores incluíram na equação a autocompaixão, um conceito primo do amor próprio, mas distinto. Enquanto o amor próprio abarca seu estado geral, a autocompaixão é especificamente como se trata quando falha ou sofre. Se castiga ou se fala como faria com um bom amigo?
O raciocínio da equipe de Jansen era o seguinte: se a teoria triangular do amor nos diz que um relacionamento completo requer intimidade (proximidade emocional), paixão (atração) e compromisso (decisão cognitiva de ficar), o que aconteceria se cruzássemos estes elementos com o amor próprio? Se tratar-se bem me dá recursos emocionais sólidos, então terá mais capacidade para sustentar a paixão, a intimidade e a lealdade com outro.
Não todo o amor próprio funciona igual
Após analisar as respostas dos participantes, os investigadores encontraram padrões fascinantes que desafiam a ideia de que o amor próprio é um “tudo ou nada”.
O autocuidado e a autoaceitação são os verdadeiros construtores de pontes
Os dados mostraram que estes dois fatores predizem de maneira significativa maiores níveis de intimidade, paixão e compromisso. Quem se perdoa seus defeitos e ativamente faz coisas para seu próprio bem-estar tem alicerces mais fortes para conectar com seu parceiro. Em poucas palavras: o amor em casal requer ações conscientes, e estas nascem mais facilmente quando já pratica a ação consciente de cuidar de si mesmo.
Saber o que sente não basta
Surpreendentemente, a autoconexão (ser consciente de suas emoções) não previu nenhum aspecto do amor romântico. O achado sugeriu que o simples fato de observar passivamente seu estado interior, embora seja um bom ponto de partida, não melhora a qualidade do relacionamento se não for acompanhado da decisão ativa de aceitar-se e cuidar-se.
A autocompaixão é a rainha da satisfação
Enquanto o autocuidado melhora a paixão e a intimidade, quando se trata de avaliar a satisfação geral com o relacionamento, a autocompaixão foi o fator estrela. As pessoas que se tratam com amabilidade após um fracasso pessoal reportaram ser muito mais felizes com seus parceiros. A interpretação é reveladora: quem sabe dar trégua a si mesmo, provavelmente sabe dar trégua ao relacionamento quando atravessa momentos difíceis.
Para chegar a estas conclusões, a equipe recrutou 460 adultos (125 homens e 335 mulheres), com uma idade média de 27 anos e relacionamentos de aproximadamente cinco anos de duração. Através de modelos matemáticos aplicados a questionários detalhados, os investigadores mapearam como os traços pessoais prediziam a qualidade do vínculo romântico.
É crucial entender o alcance destes dados. Como o estudo mediu todas estas variáveis em um só momento (um design transversal), não podemos dizer com certeza matemática que a autoaceitação cause um melhor namoro. É perfeitamente possível que o relacionamento vá em ambos os sentidos: estar imerso em um relacionamento saudável e amoroso pode ensiná-lo, com o tempo, a aceitar-se e cuidar-se melhor. Além disso, a amostra foi predominantemente jovem e com educação universitária, por isso futuros estudos deverão explorar se estas dinâmicas mudam em adultos maiores ou em distintos contextos socioeconômicos.
O que isto significa para nossas vidas?
Os achados de Jansen e sua equipe (2026) nos convidam a reescrever o roteiro. Não, você não precisa “amar-se por completo” antes de ser digno do amor de casal. Esse é um padrão inatingível. No entanto, os dados confirmam que cultivar hábitos de autoaceitação e autocompaixão facilita enormemente o trabalho de amar a outro.
Isto abre portas enormes para a terapia de casal. Tradicionalmente, a aconselhamento se foca em como os membros do casal se comunicam entre si. Mas, e se uma parte da solução reside em ensiná-los como se comunicam consigo mesmos? Se futuros estudos confirmarem esta relação causal, os programas de treinamento em autocompaixão poderiam se tornar uma ferramenta padrão para salvar casamentos.
Talvez a compaixão para consigo mesmo não seja um luxo individual ou um requisito prévio elitista para o romance, mas sim o oxigênio que permite manter viva a chama da intimidade, a paixão e o compromisso a longo prazo.
Fonte
Jansen, P., Rahe, M., & Siebertz, M. (2026). Self-love and love in a romantic relationship are partly related. Discover Psychology, 6, (1). DOI: 10.1007/s44202-025-00536-z